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segunda-feira, dezembro 06, 2010

Coraçom de auga-neve
nos suportais enegrecidos
espera o vento do norte
com os membros tolheitos
polo comboio do gelo
e os dintéis do esperpento.
O paxaro morto reclama
    - águia, corvo, melro-
    a eterna idiócia que ensalça
os beiços de marmelo
a impostura de gravata
e o arado no copelo
fai da terra a sua safra
onde cem nenos pretos
jogam com buxo à bilharda
entre pinheiros e fetos
e esterco que com a auga abranda
como amolece os velhos feitos
onde só o presente manda
pois no semáforo da fábrica
mil televisons estám paradas
e espera redençom em breve
o seu coraçom de auga-neve
na anterga língua das fadas.
Coraçom de auga-neve
cérebros de manteiga
chuchaméis derretidos
alma de escravos e plebe.

5 comentários:

Heutor disse...

Impressiona-me muito esta composiçom do rapaz do Garcia (o mais novo) polo que tam de novo e de velho tem, já me figera ás images surrelistas, mas nom à rima livre que lhe dá umha notável força rítmica... todavia nom é isso o mais surpreendente: ninguém reparou no caligrama que forma o poema dando ideia dumha coluna (imagino associada aos suportais que conformam o primeiro cenário do poema)?
Acho que é a primeira amostra disto neste blogue mas se calhar houvo outras e nom me dou conta; seja como for, parabéns por todo o que se consegue reflectir, para além de tecnicismos.

O Garcia do Outeiro disse...

É um poema jónico ;-) O outro dia explicava-lhe ao chefe de departamento, primum inter pares por los cojones, que eu era poeta e armamo-la negra porque eqaunto eu aceito qualquer expresom lírica alguns negam na sua obstinaçom pós-pol-itica a poesia social. E aí :sim que confluou com Zizek em que a pós-pólitica é do mais reaccionário e do que dá força e perpetua o actual estado de cousas.

P.D.One-Vino estou a espera de tuas novas poesias que nom necessariamente tenhem que ser longas e seguir a ritma intena (podemos procurar um necoclassismo partilhando?).

Heutor disse...

Desculpe a dilatada ausência, dom Garcia. Nom tenho mui claro que dizes de partilhar... podemos criar formas partilhadas por exemplo, beber cada um de cousas do outro para ver que sai. Umha novidade, podemos explorar as possibilidades da "rima sintáctica" que parece mui interessante.
PD: gostaria de saber que poesia de toda a que foi publicada até agora nom é social, abstendo-se de implicar a "sociedade" dum mínimo de dous indivíduos... ou é apenas social quando há multidom (um mínimo de três)?

Raíz Verde disse...

Tem raçom o Bimbaino, umha poesia muito vissual e que a vez nom perde o seu contido típico no Garcia, o Social. Cumpre seguir explorando!

Eu creio que a poesía social é aquela que implica a toda a sociedade, que a chama a muda-lo todo, a destruir os velhos axiomas e que é social máis alá dumha multidom de tres, nom?

Heutor disse...

Contodo, Jorge, a mínima sociedade estaria formada por duas pessoas (ainda nom sendo umha sociedade "plena") e é mesmamente o que a poesia exige para existir, digo entom "social" como propriedade do que está emarcado dentro da sociedade. A isso me referia, nom existe poesia que nom transcenda o indivíduo polo facto de nascer esta necesariamente (como qualquer outra produçom artística) da sociabilidade do ser humano.
Abraços