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sexta-feira, maio 29, 2009

Qui tollis pecata mundi

«Sábio, lúcido e céptico era Castelao quando nos falava daquele homem que um dia comprou um cão para ter em quem mandar. O pobre diabo, colocado por um negro destino nos últimos lugares da escala social, fez do cão macaco para poder sentir-se homem. E eu, macaco entre macacos também, começo a pensar que a Humanidade, afinal de contas, não passa de um macaco neurótico que morde sem parar a sua própria cauda», José Saramago (1986), “O Planeta dos Macacos” em Status.

27-XI-06


O paxarinho molha o bico nas agulhas dos ouriços
que sorrim ao labrego que abre sulcos na terra
coa suor dos escrementos das rulas.

O paxarinho come agulhas que degomita
na auga bendita dos soportais ennegrecidos
pola lama da chuva aceda do desamor.

O laio aterrido da terra ferida asusta ao paxarinho,
que lisca cara a cidade de tijolo apodrecido e procura,
INCESANTEMENTE,
que ardam papéis numerados,
- por ver se algum outro humano cuínca dumha árvore
empulingrado cum adival de ciúmes desgarrados-.

Bate as asas paxarinho no seu ichó de cobiça,
que zarraspiquem de imundícia a homes gordos
( esses que papam a nenos de carvom a sombra da lua,
na noite descarnada do crecente
IMPERIALISMO).
Busca paxarinho! Mira se topas nas cloacas
o fundo croc-croc de Pucho Boedo,
o velho e o sapo que desprezam na FRAGA o nosso,
o ourinho da cursilaria - que se me antolha
sádico e imundo na celeste cúpula
dos seios caídos de prostibulo-.

Batas brancas de hospital rim pola ferida do escote,
e saias de bairro chino gemem por papéis numerados;
ouve-se, no entanto, o riso daquel ouriço valente
mentres o unta a sangue salgada do amargo paxarinho:

Foge do canom que abre sulcos na terra!
Foge da relha assassina que fere com coitelos
e galheitas sulfuradas enquanto chospe lémedas!

NÓS.


O desejo de liberdade afogado dos nenos de carvom,
que desconhecem o aborrecemento das nenas de chuchamel,
rainhas da cursilaria cosmopolita,
PRIMERMUNDISTA;
o paxarinho já nom pia nos castanheiros,
anda agochado em confesionários nocturnos de gelo e rom:
EU TERCERMUNDISTA,
e um anho separatista morreu crucificado
para que os nenos de carvom sejam explorados no seu nome.

AGNUS DEI, QUI TOLLIS PECATA MUNDI,
MISERERE NOBIS.

3 comentários:

Raíz Verde disse...

Genial.

Raíz Verde disse...

Repito-me mas é: Magistral.

O Garcia do Outeiro disse...

Este era o que che comentava do paxaro é dos tópicos, símbolos e temas que compartilhamos em parte porque temos um pensamento mui semelhante (mágoa nom conhecer-nos fai tempo já) e em parte por leituras compartilhadas como as de Lorca.

Umha aperta irmandinha e obrigado