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quarta-feira, dezembro 17, 2008

Que todo quede atado y bien atado

Batida nas veigas de Viana

A lua quase nom se percebia na obscuridade dum céu nocturno onde loitavam nuvens e estrelas por um espaço na bóveda que rodeava as cabeças dos homes. A sua idade, a sua estatura e a sua classe era baixa. Só tinham umha escopeta que logo lhe cumpria descansar no caixote do lixo, onde se deitam todas as as imundícias da limpa, higiénica e entranhável civilizaçom ocidental. Mas, contodo, aqueles homes eram idígenas, nom europeios, pertenciam a um ritmo vital, a uns ecos e a umha paisage de montanha, pousada, passada, presente, eterna; pertenciam a cultura da Viana pré-capitalista ou mais bem à cultura tradicional das veigas só pervertida no XX pola uniformizaçom da globalizaçom.

Aguardavam cos olhos abertos e injectados de sangue. Embargava-os umha vaga de emoçons homicidas. Esperavam por trás do milho a ver se algumha luz ou sinal fosforescia para passar a acçom, como recortes de paciência secular. Um deles começou a cavilar na sua infáncia, nos anos que passara na escola de dona Pacita, pois pertencera a derradeira fornada de alunos da casa-escola de Santa Cruz de Viana... do 1860 aos anos setenta... que pensaria aquela mestra se o visse argalhando um assassínio no meio do milho da nabeira da Regueira? Esboçou um tímido riso que o seu companheiro nom percebeu, “seguro que me batia coa vara nos dedos”, pensou.

- Já verás como levo eu razom

- Nom a aposta ganho-a eu de certo, ti nom sabes o que dis

As horas passavam lentas, como quando os dedos saboreiam a textura dum bom livro e a tensom cortava o ar malia os quarenta anos de paz nos que supostamente vivera o país da Purreira. Contra a manhá, quando o sono começava a ameaçar as ánsias de sangue dos visitantes vírom-se dous pequenos pontos vermelhos como se fossem os olhos dum javaril. Dous estampidos espertárom aos cans do Outeiro e de Vila Meá. A adrenalina desceu desde as pituitárias dos homes co cheiro a morte e umha emoçom inexplicável perturbava os seus espíritos camponeses quando ouvírom os gemidos dos dous animais que levavam anos escaralhando a sua colheita:

- Viches quem lhe aprendeu a fumar ao teu filho e ao meu?

- Tinhas razom, hóstia, a mestra e o cura.

E as campás tocárom anunciando a morte do Estado, a tirania e a opressom nas veigas de Viana... enquanto o cacique descia a tobeira, um velho raposo que sabia que voltariam bons tempos para el... a pseudo-democracia tamém era umha raposa fina.

3 comentários:

Raíz Verde disse...

Gusta-me. Em certos sensos lembra-me a hitórias familiares e no outro tem esa sublime caracteristica dos bos textos.

Raíz Verde disse...

ademais concordo com muitas ideas que manda o texto, umha que fago minha é por ex. a de pervesom uniformizadora da globalizaçom.

Saúde e Terra

albagal disse...

Fermoso e emocionante. Escribes mui bem!

Um beijinho ;)