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domingo, abril 15, 2012

VIVEREMOS ATÉ À MORTE

À Lisa, umha amiga que desmentiu Descartes

Neste bairro como noutros
Sempre morr’algum vizinho
Mas aqui com mais frequência
Passa’o tránsito prenhado
De cadáveres ciscados.
Somos gente respeitosa
Coas pessoas que morrêrom
E cos corpos que deixárom,
Mas alguém repara’a sério
Na’ocorrência mais sangrante?
Nesta’estrada coa janeira
Fica sempr’um gato’à beira
Morto sempre sob as rodas
Quando’espanca contr'ò'asfalto;
Ratas há também algumhas
E mais pombas, sempre mortas,
Animais e bicharada,
Mas nom fica’o conto nisso.
As casinhas tenhem todas
Umha porta principal
E’a dous passos já na’estrada
Como gatos, pombas, ratas,
Passa’o tránsito veloz,
Nem s’importa de pessoas
Nem d'algumha bicharada:
Pode ter algumha pena
Polos muitos passamentos,
Mas nom deixa de passar.
Na manhám do dia d’ontem
Foi o corpo dum vizinho
Levantado da morada:
El’e’a sua companheira
Consumiam metadona,
E fugira dessa roda
Com sucesso por um tempo.
Lá fugimos sem paragem,
Gente junto’à bicharia!
Mas o tránsito nom pára
Porta’adentro’e porta’afora.
Gem’a vida nesta’estrada
Que parece, como’o bairro,
Semelhant’a muitas outras
Que poidamos ir morar
Entre terra'e mais estrelas.

3 comentários:

Jorge CimadeVila disse...

O eterno retorno irmao, apenAs creio que debamos confíar em moradas celestiais.

Antom Fente Parada disse...

Já o dizia Carrero: "O trânsito não pára!".

Heutor disse...

Seria bonito a vida deixar de nos atropelar algum dia, né? Espero chegar a ver algo que se pareça com isso...